ARTIGO

Suicídio: Vontade de morrer ou de parar de sofrer?

segunda-feira, 10/09/18 13:50

O suicídio é um tema que mobiliza muito a todos nós, pois nos coloca diante de alguns sentimentos que costumamos evitar no cotidiano, tais como angústia, desespero, dor, vazio existencial, entre outros. Porém, são sentimentos naturais que emergem em todos nós ao longo da vida e devemos dar a eles a devida atenção.

Embora seja um tema complexo e polêmico, podemos generalizar que julgamentos não ajudam quando o assunto é suicídio! É comum que pessoas que já tentaram se matar algumas vezes tenham sua dor diminuída por julgamentos do tipo “ele está só querendo chamar a atenção”, “se quisesse se matar mesmo, tinha feito de outro jeito” e por aí vai. Acredito que sejam pensamentos incoerentes, pois chamar atenção de uma forma tão arriscada por si só já é um grito de socorro que merece e deve ser ouvido com respeito e solidariedade. Além disto, não se deve duvidar de uma ameaça, pois é comum pessoas que se suicidaram terem tentado antes ou terem anunciado de alguma forma. Assim como não devemos também superproteger pessoas com ideação suicida ou que já tentaram, pois podemos fragilizar ainda mais a pessoa. Precisamos confiar e focar no potencial dela de reconstruir sentidos para sua vida e se cuidar. Os extremos costumam não ser bons conselheiros.

É um assunto delicado, incômodo, mas que precisa ser abordado porque ele é uma possibilidade presente em qualquer idade, em qualquer nível social e em qualquer contexto. É importante falar dele porque podemos prevenir e aprender a identificar melhor quando alguém próximo de nós ou até a gente mesmo estiver vulnerável a praticar tal ato.

Geralmente, quando uma pessoa pensa em se matar, ela não quer morrer; o que ela quer mesmo é acabar com alguma dor moral que está insuportável e, na dificuldade para enxergar outras opções, escolhe um caminho extremo, motivada pelo desespero. Muitas vezes não enxergamos saídas, mas elas sempre existem e é muito importante se cercar de recursos que fortaleçam o enfrentamento das situações por mais adversas que sejam sem ter que recorrer a um recurso tão drástico.

Geralmente optar por esta “saída” denuncia um sentido da vida frágil ou mesmo inexistente, além de mostrar que há poucos recursos de enfrentamento. Quando temos algum motivo pelo que lutar isto nos fortalece, como disse Victor Frankl, psiquiatra que após a árdua experiência de viver como prisioneiro em campos de concentração durante a segunda guerra mundial, escreveu o livro “O sentido da vida”. Ele percebeu que quem tinha motivo para viver, qualquer que fosse, encontrava forças para suportar até mesmo os horrores da tortura e quem não tinha já estava “morto” e não lutava. Frankl dizia que “Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.”

Desta forma, prevenir o suicídio passa por resgatar e /ou construir sentidos para a vida, preferencialmente que sejam pautados em valores duradouros e não voláteis como colocar a “felicidade” na posse de bens materiais por exemplo. Os vínculos humanos são essenciais para a prevenção do suicídio, assim como tecer redes de afeto, de solidariedade, de apoio, fazer o que gosta, não se cobrar nem se culpar em excesso, se permitir, entre outros. Deve-se buscar ajuda quando estiver sendo difícil fazer isto sozinho através da psicoterapia, da meditação, da dança, do yoga, das amizades e de serviços como o CVV- Centro de valorização da Vida, que tem atendimento telefônico de auxílio 24 horas, 188.

Há também formas bem mais sutis de nos “matarmos” ao negligenciarmos os cuidados que poderíamos ter conosco e não temos, quando não cuidamos do corpo, quando adquirimos vícios e os praticamos em excesso, quando não cuidados do nosso emocional e quando nos acomodamos em situações que nos fazem infelizes. Muitas vezes, atuar nestas pequenas “mortes” do nosso eu e do outro representa a melhor prevenção para o suicídio.

 

Luciana Gaudio Martins Frontzek
Neuropsicóloga
Pós-doutora em intervenções clínicas e sociais Puc Minas
Doutora em saúde coletiva – Fio Cruz
Mestre em psicologia social- UFMG
Professora universitária e psicóloga do SINJUS

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