Inclusão efetiva de pessoas com deficiência exige acessibilidade desde a concepção dos eventos
sexta-feira, 25/09/26 19:29
A tecnologia tem ampliado as possibilidades de pessoas com deficiência participarem plenamente de eventos e atividades culturais. Entretanto, esses recursos sozinhos não garantem inclusão, pois a acessibilidade deve ser uma premissa já na concepção e no planejamento do projeto. Essa mudança de mentalidade é um dos desafios apontados por expositores que estiveram presentes na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade, promovida pelo SINJUS-MG, SERJUSMIG e SINDOJUS/MG, entre os dias 21 e 25 de setembro, na sede do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
Garantir acessibilidade em um espetáculo, seminário, show ou atividade cultural exige mais do que conferir, às vésperas da abertura das portas, se há algum recurso destinado às pessoas com deficiência. Para que a inclusão seja efetiva, é preciso uma integração de todo o projeto desde a concepção, passando pela escolha do espaço, dos canais de comunicação, das tecnologias utilizadas e pela preparação da equipe que terá contato com o público.
Para o fundador da Acessify e pessoa com deficiência auditiva, Matheus Guifer, um dos principais problemas ainda é justamente a entrada tardia dos profissionais de acessibilidade na organização dos eventos. “O mercado enxerga a acessibilidade como um item de check-list, uma obrigação a ser cumprida”, afirma. Segundo ele, muitas vezes a empresa especializada é chamada quando quase todas as decisões já foram tomadas, reduzindo as possibilidades de construir uma solução realmente adequada à experiência do público.
Por outro lado, em um projeto concebido de forma inclusiva, as acessibilidades arquitetônica, comunicacional, tecnológica e atitudinal são consideradas conjuntamente desde o orçamento e a definição do espaço até a execução.
Na prática, essa diferença separa uma acessibilidade apenas protocolar de uma experiência verdadeiramente acessível. De acordo com Gabriel Aquino, da Vias Acessíveis, ao contratar um recurso isolado somente na etapa final, o organizador de eventos compromete toda a experiência da pessoa com deficiência e até desestimula esse público a participar da atividade.
Legislação exige acessibilidade
Garantir acessibilidade não é apenas uma boa prática de produção e organização de eventos. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) estabelece o direito das pessoas com deficiência à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades e garante acesso aos bens culturais. Além disso, a própria legislação define como barreiras não apenas obstáculos arquitetônicos e tecnológicos, mas também comportamentos e atitudes que prejudiquem a participação social em igualdade de condições.
Na mesma direção, as políticas de fomento a atividades culturais determinam que projetos apoiados com recursos públicos ofereçam medidas de acessibilidade arquitetônica, comunicacional e atitudinal.


Matheus Guifer, da Acessify, demonstrando a solução de legenda em tempo real
Essas exigências ajudam a explicar por que, na experiência dos expositores, projetos culturais fomentados por leis de incentivo ou realizados por instituições públicas têm investido em recursos acessíveis, enquanto parte do mercado privado ainda ignora o direito das pessoas com deficiência.
Segundo Guifer, a procura pelos serviços da Acessify tem aumentado, especialmente em razão das exigências legais, mas ele afirma que ainda há instituições interessadas somente em cumprir formalmente o requisito.
Essa situação também se reflete na Vias Acessíveis. De acordo com Gabriel Aquino, cerca de 90% dos clientes estão vinculados à área cultural, com contratações vinculadas a mecanismos de fomento, além de instituições e produtores culturais. Fora desse universo, segundo ele, a demanda é significativamente menor.
Mercado dispõe de várias soluções
Um exemplo de como a tecnologia pode ser integrada à experiência de um evento foi apresentado pela Acessify durante a Mostra de Tecnologias Assistivas. Com o nome de “Lira”, o software viabiliza legendas em tempo real para teatros, shows, palestras, cerimônias, entre outros. Nos espetáculos musicais, o recurso pode apresentar as letras de forma sincronizada e acrescentar elementos visuais associados às partes instrumentais.
A tecnologia desenvolvida por Guifer também identifica diferentes falantes, organiza as falas e permite tradução simultânea junto à transcrição, com atraso inferior a um segundo. Além de pessoas surdas ou com deficiência auditiva, o recurso pode beneficiar idosos, pessoas neurodivergentes, quem não domina o idioma utilizado ou quem está em ambientes com muito ruído.


Lidia Fernandes e Gabriel Aquino no estande da Vias Acessíveis
Para pessoas cegas ou com baixa visão, a Vias Acessíveis trabalha, entre outros recursos, com audiodescrição. Os receptores individuais permitem que o público acompanhe com comodidade apresentações teatrais, de dança, palestras ou seminários. Pelo sistema, também são repassadas informações sobre elementos visuais que ampliam a compreensão das pessoas com deficiência visual. Afinal, a comunicação também se dá por movimentos, elementos do cenário, características físicas, expressões faciais, entre outros.
Planejamento e respeito são premissas para eventos inclusivos
A locação de equipamentos e softwares por si só não garante acessibilidade a um evento ou atividade cultural. Para um bom serviço de audiodescrição, por exemplo, Gabriel Aquino defende a adoção de critérios de qualidade, de preparação prévia, bem como a participação de pessoas com deficiência no processo, pois muitos aspectos não são perceptíveis para quem não utiliza o recurso.
Foi justamente por participar de eventos em que a opinião das pessoas não foi considerada no processo e sentir os reflexos disso que Matheus Guifer começou a empreender, em 2015. Ele identificou a necessidade de contar recursos que ele próprio, como pessoa com deficiência auditiva, poderia se beneficiar. Hoje, ele se define como produtor e usuário das tecnologias que desenvolve, relacionando essa experiência ao princípio “nada sobre nós sem nós”.
“Foi uma alegria enorme estar nesta Mostra. Além de apresentar meu trabalho, tive a oportunidade de conhecer soluções de expositores de vários estados e ver de perto como a pesquisa e a tecnologia de acessibilidade estão evoluindo no Brasil”, afirmou Guifer.
A Mostra de Tecnologias Assistivas possibilitou que pessoas com e sem deficiência pudessem conhecer as soluções da Acessify, da Vias Acessíveis e de várias outras empresas, universidades e empreendedores brasileiros. O evento foi uma realização do Núcleo da Pessoa com Deficiência do SINJUS, em parceria com o SERJUSMIG e o SINDOJUS/MG, com apoio do TJMG e da Escola Nacional da Magistratura, e patrocínio do Sicoob JUS-MP.


