CIÊNCIA E ACESSIBILIDADE

Universidades públicas transformam pesquisa em inovação e ampliam acesso a tecnologias assistivas

quinta-feira, 24/09/26 20:16 Foto de grupo nos estandes da Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade, promovida pelo SINJUS-MG. À esquerda está José Carlos Tonolli, da Click Tecnologia Assistiva, ao lado de equipamentos, notebooks e materiais de comunicação da empresa. No centro, a equipe da UFU é formada por Eryc Dias, Denize Novais, Dayane Nascimento e Marco Túlio Rodrigues, posicionados diante de uma tela com a identidade visual da Mostra e junto a dispositivos e recursos de tecnologia assistiva. À direita, a equipe da UFMG reúne Sarah Cortezzi, Jorge Bençussan e Pedro Caversan, atrás de uma bancada com protótipos, equipamentos eletrônicos e materiais relacionados a tecnologia assistiva e biomecânica. Todos posam para a foto no espaço da exposição.

Investir em universidades públicas significa também investir na criação de tecnologias capazes de transformar a vida da população. Nos laboratórios universitários, conhecimentos de diferentes áreas se encontram para desenvolver desde materiais e softwares até próteses, recursos de comunicação e equipamentos voltados à autonomia das pessoas com deficiência. Parte desse trabalho pôde ser conhecida nesta semana na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade, promovida pelo SINJUS-MG, SERJUSMIG e SINDOJUS/MG, que reuniu pesquisadores, empresas e instituições para apresentar soluções já disponíveis e projetos que ainda percorrem o caminho entre a pesquisa científica e a utilização pela sociedade.

A trajetória de José Carlos Tonolli, da Click Tecnologia Assistiva, ajuda a mostrar como universidades e centros de pesquisa foram decisivos no desenvolvimento de soluções para melhorar a qualidade de vida dessa parcela da população. Ele conta que, na década de 1990, quando a comunicação aumentativa e alternativa ainda dava seus primeiros passos no Brasil, sua esposa, que é fisioterapeuta, conheceu a área a partir de uma formação ministrada por uma profissional que trabalhava no Canadá. Foi a esposa quem o incentivou a abrir a empresa e a desbravar esse novo mercado. 

José Carlos Tonolli, da Click Tecnologia Assistiva, ao lado de equipamentos, notebooks e materiais de comunicação da empresa

Contudo, ao empreender no segmento, Tonolli constatou que as principais iniciativas estavam no exterior. Por isso, ele precisou viajar para participar de formações em tecnologia assistiva promovidas por universidades dos Estados Unidos.  “Todo o desenvolvimento tecnológico aconteceu dentro das universidades, com dinheiro público”, afirma Tonolli, lembrando que o próprio termo “tecnologia assistiva” foi criado nos Estados Unidos sob pressão popular após a Guerra do Vietnã, para orientar juridicamente os benefícios que o Estado deveria oferecer a cidadãos com deficiência. 

Para o empresário, a tecnologia assistiva exige participação do poder público não somente no financiamento da pesquisa, mas também na criação de condições para que produtos e serviços possam chegar às pessoas que precisam deles. “A tecnologia assistiva é sempre um assunto de Estado”, afirma José Tonolli.

Por isso, ele está sempre atento ao que acontece nas universidades e no mercado de modo a oferecer as soluções mais adequadas para o mercado brasileiro. Durante a Mostra, a Click Tecnologia Assistiva apresentou aos visitantes uma série de produtos de comunicação aumentativa e alternativa, como softwares, acionadores, recursos de acessibilidade ao computador e soluções que permitem, por exemplo, controlar equipamentos por rastreamento ocular. 

Pesquisa em rede

Se na década de 1990 quase todas as inovações vinham de fora, hoje a realidade já é diferente. Nos laboratórios das universidades federais brasileiras, a inovação está sendo produzida a partir de elementos essenciais que são a interdisciplinaridade e a pluralidade. No LabBio, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadores e estudantes de áreas como Engenharia Mecânica, Elétrica, de Controle e Automação, Química e de Materiais, bem como de Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Medicina, entre outros, trabalham juntos em projetos voltados às tecnologias assistivas. 

Equipe da UFMG reúne Sarah Cortezzi, Jorge Bençussan e Pedro Caversan, atrás de uma bancada com protótipos e equipamentos eletrônicos

Esse encontro de diferentes conhecimentos permite analisar uma mesma necessidade por perspectivas complementares e desenvolver soluções que considerem simultaneamente aspectos tecnológicos, funcionais e relacionados à saúde.

Para isso, segundo o bolsista de iniciação científica do LabBio/UFMG, Jorge Bençussan, o desenvolvimento de uma tecnologia assistiva dentro da universidade também envolve procedimentos rigorosos e, muitas vezes, demorados.

“Os projetos começam com revisão da literatura científica e passam pelo desenho e desenvolvimento da solução até chegar à etapa de validação com usuários. Como é uma tecnologia que vai ser usada por alguém, esse projeto só pode ser validado depois de testes clínicos. Além disso, existem normas específicas para a validação de próteses e outros dispositivos, e o retorno dos próprios usuários é utilizado para aprimorar os projetos”, explica. 

Tecnologia nacional disponível para o público

Parte das pesquisas realizadas no laboratório da UFMG já conseguiu ultrapassar os muros da universidade e chegar ao mercado. Um dos exemplos é uma linha de tênis desenvolvida a partir do uso de sensores que analisam a pisada, assim como materiais e reagentes químicos. Atualmente, outras pesquisas seguem em desenvolvimento, incluindo soluções relacionadas a órteses e próteses, que foram expostas aos visitantes da Mostra de Tecnologias Assistivas. 

Além da produção de tecnologia nacional, o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento nas universidades federais favorece ainda que essas soluções cheguem de forma mais acessível à população menos favorecida. Isso porque, diferentemente das empresas privadas, as instituições de ensino têm por característica estruturar parcerias com instituições públicas e organizações da sociedade civil que participam de projetos sociais. 

Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a trajetória do Centro Brasileiro de Referência em Inovações Tecnológicas para Esportes Paralímpicos (Cintesp.Br) também mostra como as parcerias ajudam a aproximar a pesquisa das necessidades concretas da população. 

Segundo a pesquisadora Dayane Nascimento, o trabalho começou concentrado em tecnologia assistiva aplicada ao esporte, mas passou a incorporar conhecimentos de Pedagogia, Direito, Engenharia Mecânica e Engenharia Elétrica. Assim, também começaram a ser desenvolvidas atividades junto a associações e outras instituições de Uberlândia. 

“A ideia é que o conhecimento científico não fique restrito ao laboratório”, complementa a pesquisadora Denize Novais, reforçando que o foco está na identificação de uma demanda real até o desenvolvimento, a validação e a transferência da tecnologia. 

Falta de investimento é entrave para o desenvolvimento de mais tecnologias

Equipe da UFU é formada por Eryc Dias, Denize Novais, Dayane Nascimento e Marco Túlio Rodrigues

Entretanto, transformar conhecimento em um produto final disponível para a sociedade exige financiamento de toda a cadeia de inovação, desde a pesquisa, desenvolvimento de protótipos e softwares, infraestrutura, equipamentos, ensaios, propriedade intelectual e recursos humanos. É o que alerta o pesquisador da UFU e analista de sistemas Marco Túlio Rodrigues de Andrade.

“O desafio é atravessar o chamado ‘vale’ entre o protótipo desenvolvido na universidade e a solução efetivamente disponibilizada à população, pois,  muitas vezes os recursos disponibilizados para projetos cobrem apenas determinadas etapas ou bolsas por períodos de um a três anos, o que dificulta a continuidade das equipes, provoca perda de pesquisadores e pode interromper uma tecnologia antes de ela atingir um estágio adequado para transferência ou produção”, ressalta Marco Túlio Rodrigues.

Como alternativa para contornar os altos custos de se desenvolver um produto totalmente novo, os pesquisadores da UFU também estão trabalhando com manufatura aditiva, impressão 3D, modelos abertos e metodologias maker para produzir produtos mais baratos ou adaptar objetos já existentes às necessidades das pessoas com deficiência. 

Alguns dos exemplos que foram apresentados pelo Cintesp.Br na Mostra de Tecnologias Assistivas foram suportes para pessoas amputadas. “Produzir tecnologia mais barata também é um jeito de inovar”, afirma o pesquisador e engenheiro de software Eryc Dias.

As tecnologias e as soluções mencionadas nesta matéria podem ser conhecidas de perto na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade, que está aberta ao público até esta sexta-feira, dia 25 de setembro, das 9h às 17h, no hall de entrada da sede do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), em Belo Horizonte. 

A Mostra de Tecnologias Assistivas é uma realização do SINJUS-MG, em parceria com SERJUSMIG e SINDOJUS/MG, com apoio do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e da Escola Nacional da Magistratura, e patrocínio do Sicoob JUS-MP. 

Notícias relacionadas

A arte mostra ao fundo registros de algumas tecnologias sendo apresentadas na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade no TJMG. A montagem reúne fotos de visitantes conhecendo e experimentando diferentes recursos de tecnologia assistiva durante a exposição promovida pelo SINJUS-MG, com demonstrações e interação entre participantes e expositores.
Mostra inclusiva Informação e tecnologia derrubam barreiras para pessoas com deficiência quarta-feira, 23/09/26 19:05 O acesso à informação é o primeiro passo para derrubar barreiras que limitam a autonomia e a interação social das pessoas com deficiência. De forma prática, saber que determinada tecnologia assistiva existe pode ser a diferença entre perder um ... leia mais

Últimas notícias

ver mais
A arte mostra ao fundo registros de algumas tecnologias sendo apresentadas na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade no TJMG. A montagem reúne fotos de visitantes conhecendo e experimentando diferentes recursos de tecnologia assistiva durante a exposição promovida pelo SINJUS-MG, com demonstrações e interação entre participantes e expositores. Mostra inclusiva Informação e tecnologia derrubam barreiras para pessoas com deficiência quarta-feira, 23/09/26 19:05 O acesso à informação é o primeiro passo para derrubar barreiras que limitam a ...
Arte mostra em destaque o título: “Após luta do SINJUS, TJ regulamenta acréscimo de 50% no auxílio-saúde para PCDs e pessoas com doenças graves”. Ao fundo, uma pessoa com prótese no braço trabalha sentada à mesa, diante de um notebook, em ambiente de escritório. Direito conquistado Após luta do SINJUS, TJ regulamenta acréscimo de 50% no Auxílio-Saúde para PCDs e pessoas com doenças graves terça-feira, 22/09/26 19:02 O SINJUS-MG conquistou mais um avanço na luta por um Auxílio-Saúde compatível com as ...
Fotografia em plano geral do auditório do TJMG durante a solenidade de abertura da Mostra de Tecnologias Assistivas. No palco, autoridades e representantes de pé e em posição de respeito perfilam-se atrás de uma longa bancada de madeira escura. Entre os integrantes da mesa e convidados estão Felipe Rodrigues (coordenador-geral do SINJUS), Alex Aguiar (coordenador do Núcleo da Pessoa com Deficiência - NPD), o desembargador Manoel dos Reis Morais (2º vice-presidente do TJMG), Raimundo Messias Júnior (Corregedor-geral de Justiça), Eduardo Couto (presidente do SERJUSMIG), Roberto Carlos de Arruda (diretor do SINDOJUS/MG), além de representantes da magistratura e dos ministérios da Ciência e Tecnologia e dos Direitos Humanos e Cidadania. Inclusão e cidadania SINJUS inaugura Mostra de Tecnologias Assistivas e fortalece luta das pessoas com deficiência segunda-feira, 21/09/26 21:27 O SINJUS-MG reafirmou mais uma vez o seu compromisso com o fortalecimento da luta ...

Convênios

ver mais
Eleve-se | Estética e Bem-Estar Clínicas de Estética Boa Viagem . Belo Horizonte (31) 97140-1060 20% ver mais
Plenna Harmonização Clínicas de Estética Santo Agostinho . Belo Horizonte (31) 98829-9140 / 3564-6909 plenna.net.br 15% ver mais
Évora Home Care Clínicas - Especialidades Médicas Santa Tereza . Belo Horizonte (31) 3656-2296 (31) 97542-9919 http://www.evorahomecare.com.br/ 30% ver mais
Top Fale conosco