Universidades públicas transformam pesquisa em inovação e ampliam acesso a tecnologias assistivas
quinta-feira, 24/09/26 20:16
Investir em universidades públicas significa também investir na criação de tecnologias capazes de transformar a vida da população. Nos laboratórios universitários, conhecimentos de diferentes áreas se encontram para desenvolver desde materiais e softwares até próteses, recursos de comunicação e equipamentos voltados à autonomia das pessoas com deficiência. Parte desse trabalho pôde ser conhecida nesta semana na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade, promovida pelo SINJUS-MG, SERJUSMIG e SINDOJUS/MG, que reuniu pesquisadores, empresas e instituições para apresentar soluções já disponíveis e projetos que ainda percorrem o caminho entre a pesquisa científica e a utilização pela sociedade.
A trajetória de José Carlos Tonolli, da Click Tecnologia Assistiva, ajuda a mostrar como universidades e centros de pesquisa foram decisivos no desenvolvimento de soluções para melhorar a qualidade de vida dessa parcela da população. Ele conta que, na década de 1990, quando a comunicação aumentativa e alternativa ainda dava seus primeiros passos no Brasil, sua esposa, que é fisioterapeuta, conheceu a área a partir de uma formação ministrada por uma profissional que trabalhava no Canadá. Foi a esposa quem o incentivou a abrir a empresa e a desbravar esse novo mercado.


José Carlos Tonolli, da Click Tecnologia Assistiva, ao lado de equipamentos, notebooks e materiais de comunicação da empresa
Contudo, ao empreender no segmento, Tonolli constatou que as principais iniciativas estavam no exterior. Por isso, ele precisou viajar para participar de formações em tecnologia assistiva promovidas por universidades dos Estados Unidos. “Todo o desenvolvimento tecnológico aconteceu dentro das universidades, com dinheiro público”, afirma Tonolli, lembrando que o próprio termo “tecnologia assistiva” foi criado nos Estados Unidos sob pressão popular após a Guerra do Vietnã, para orientar juridicamente os benefícios que o Estado deveria oferecer a cidadãos com deficiência.
Para o empresário, a tecnologia assistiva exige participação do poder público não somente no financiamento da pesquisa, mas também na criação de condições para que produtos e serviços possam chegar às pessoas que precisam deles. “A tecnologia assistiva é sempre um assunto de Estado”, afirma José Tonolli.
Por isso, ele está sempre atento ao que acontece nas universidades e no mercado de modo a oferecer as soluções mais adequadas para o mercado brasileiro. Durante a Mostra, a Click Tecnologia Assistiva apresentou aos visitantes uma série de produtos de comunicação aumentativa e alternativa, como softwares, acionadores, recursos de acessibilidade ao computador e soluções que permitem, por exemplo, controlar equipamentos por rastreamento ocular.
Pesquisa em rede
Se na década de 1990 quase todas as inovações vinham de fora, hoje a realidade já é diferente. Nos laboratórios das universidades federais brasileiras, a inovação está sendo produzida a partir de elementos essenciais que são a interdisciplinaridade e a pluralidade. No LabBio, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadores e estudantes de áreas como Engenharia Mecânica, Elétrica, de Controle e Automação, Química e de Materiais, bem como de Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Medicina, entre outros, trabalham juntos em projetos voltados às tecnologias assistivas.


Equipe da UFMG reúne Sarah Cortezzi, Jorge Bençussan e Pedro Caversan, atrás de uma bancada com protótipos e equipamentos eletrônicos
Esse encontro de diferentes conhecimentos permite analisar uma mesma necessidade por perspectivas complementares e desenvolver soluções que considerem simultaneamente aspectos tecnológicos, funcionais e relacionados à saúde.
Para isso, segundo o bolsista de iniciação científica do LabBio/UFMG, Jorge Bençussan, o desenvolvimento de uma tecnologia assistiva dentro da universidade também envolve procedimentos rigorosos e, muitas vezes, demorados.
“Os projetos começam com revisão da literatura científica e passam pelo desenho e desenvolvimento da solução até chegar à etapa de validação com usuários. Como é uma tecnologia que vai ser usada por alguém, esse projeto só pode ser validado depois de testes clínicos. Além disso, existem normas específicas para a validação de próteses e outros dispositivos, e o retorno dos próprios usuários é utilizado para aprimorar os projetos”, explica.
Tecnologia nacional disponível para o público
Parte das pesquisas realizadas no laboratório da UFMG já conseguiu ultrapassar os muros da universidade e chegar ao mercado. Um dos exemplos é uma linha de tênis desenvolvida a partir do uso de sensores que analisam a pisada, assim como materiais e reagentes químicos. Atualmente, outras pesquisas seguem em desenvolvimento, incluindo soluções relacionadas a órteses e próteses, que foram expostas aos visitantes da Mostra de Tecnologias Assistivas.
Além da produção de tecnologia nacional, o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento nas universidades federais favorece ainda que essas soluções cheguem de forma mais acessível à população menos favorecida. Isso porque, diferentemente das empresas privadas, as instituições de ensino têm por característica estruturar parcerias com instituições públicas e organizações da sociedade civil que participam de projetos sociais.
Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a trajetória do Centro Brasileiro de Referência em Inovações Tecnológicas para Esportes Paralímpicos (Cintesp.Br) também mostra como as parcerias ajudam a aproximar a pesquisa das necessidades concretas da população.
Segundo a pesquisadora Dayane Nascimento, o trabalho começou concentrado em tecnologia assistiva aplicada ao esporte, mas passou a incorporar conhecimentos de Pedagogia, Direito, Engenharia Mecânica e Engenharia Elétrica. Assim, também começaram a ser desenvolvidas atividades junto a associações e outras instituições de Uberlândia.
“A ideia é que o conhecimento científico não fique restrito ao laboratório”, complementa a pesquisadora Denize Novais, reforçando que o foco está na identificação de uma demanda real até o desenvolvimento, a validação e a transferência da tecnologia.
Falta de investimento é entrave para o desenvolvimento de mais tecnologias


Equipe da UFU é formada por Eryc Dias, Denize Novais, Dayane Nascimento e Marco Túlio Rodrigues
Entretanto, transformar conhecimento em um produto final disponível para a sociedade exige financiamento de toda a cadeia de inovação, desde a pesquisa, desenvolvimento de protótipos e softwares, infraestrutura, equipamentos, ensaios, propriedade intelectual e recursos humanos. É o que alerta o pesquisador da UFU e analista de sistemas Marco Túlio Rodrigues de Andrade.
“O desafio é atravessar o chamado ‘vale’ entre o protótipo desenvolvido na universidade e a solução efetivamente disponibilizada à população, pois, muitas vezes os recursos disponibilizados para projetos cobrem apenas determinadas etapas ou bolsas por períodos de um a três anos, o que dificulta a continuidade das equipes, provoca perda de pesquisadores e pode interromper uma tecnologia antes de ela atingir um estágio adequado para transferência ou produção”, ressalta Marco Túlio Rodrigues.
Como alternativa para contornar os altos custos de se desenvolver um produto totalmente novo, os pesquisadores da UFU também estão trabalhando com manufatura aditiva, impressão 3D, modelos abertos e metodologias maker para produzir produtos mais baratos ou adaptar objetos já existentes às necessidades das pessoas com deficiência.
Alguns dos exemplos que foram apresentados pelo Cintesp.Br na Mostra de Tecnologias Assistivas foram suportes para pessoas amputadas. “Produzir tecnologia mais barata também é um jeito de inovar”, afirma o pesquisador e engenheiro de software Eryc Dias.
As tecnologias e as soluções mencionadas nesta matéria podem ser conhecidas de perto na Mostra de Tecnologias Assistivas e Soluções de Acessibilidade, que está aberta ao público até esta sexta-feira, dia 25 de setembro, das 9h às 17h, no hall de entrada da sede do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), em Belo Horizonte.
A Mostra de Tecnologias Assistivas é uma realização do SINJUS-MG, em parceria com SERJUSMIG e SINDOJUS/MG, com apoio do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e da Escola Nacional da Magistratura, e patrocínio do Sicoob JUS-MP.



