Assédio moral no trabalho é mais intenso entre os grupos já vulnerabilizados
terça-feira, 19/05/26 17:51
Em 2025, mais de 142 mil ações por assédio moral foram registradas na Justiça do Trabalho. Mais do que episódios pontuais, o assédio moral é caracterizado por condutas repetitivas que expõem trabalhadores a situações de humilhação, constrangimento e desvalorização profissional. No entanto, a forma como essas ações se manifestam e quem é mais atingido por elas revela um padrão que vai além do comportamento individual.
Pesquisas indicam que trabalhadores pertencentes a grupos historicamente vulnerabilizados estão mais expostos a práticas abusivas no ambiente laboral. Segundo a psicóloga e diretora de Assuntos Sociais, Culturais e de Saúde do SINJUS-MG, Patrícia Oliveira, isso ocorre porque relações de poder no trabalho frequentemente reproduzem hierarquias sociais já existentes.
“O assédio moral no trabalho não ocorre de forma isolada ou neutra. Diversos estudos acadêmicos e dados institucionais demonstram que o assédio moral está diretamente relacionado às desigualdades estruturais presentes na sociedade, como racismo, machismo, discriminação por orientação sexual e capacitismo, entre outros”, revelou a dirigente.
Desigualdades que estruturam o assédio
No caso do racismo, o assédio moral costuma se manifestar de forma contínua e velada, por meio de cobranças mais rígidas, isolamento, questionamento constante da competência e exclusão de oportunidades. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelam que, até 17 de maio de 2026, o Disque 100, canal de denúncias oficial do governo federal, já recebeu mais de 8 mil denúncias de racismo, injúria racial ou discriminação. Entre os locais identificados nas denúncias, estão os ambientes de trabalho das vítimas, evidenciando que a violência racial também se manifesta nas relações laborais.
De maneira semelhante, trabalhadores LGBTQIA+ relatam experiências recorrentes de constrangimento no ambiente profissional. Resultados do projeto Pride, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), apontam que este grupo social frequentemente enfrenta discriminação, assédio e exclusão no ambiente profissional, especialmente quando há pressão para adequação a padrões heteronormativos e medo de exposição da identidade. Entre os entrevistados pelo Center for Talent Innovation (CTI), 61% dos profissionais LGBTQIA+ já esconderam a própria identidade no trabalho para evitar discriminação ou impactos profissionais.
As pessoas com deficiência também enfrentam barreiras significativas de inclusão no mercado de trabalho, o que amplia sua vulnerabilidade a práticas abusivas. De acordo com o Boletim Especial do Observatório Nacional do Mercado de Trabalho, produzido em 2024, nesses casos, o assédio moral frequentemente se expressa pela exclusão de atividades, pela desconsideração de necessidades específicas e pela subestimação da capacidade profissional.
As desigualdades de gênero também influenciam a forma como o assédio moral se manifesta no ambiente de trabalho. Mulheres relatam com frequência episódios de deslegitimação da autoridade, interrupções constantes, cobrança desproporcional e exclusão de espaços de decisão. O guia Liderança Responsável, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), aponta que práticas aparentemente naturalizadas, como comentários sobre comportamento, aparência ou postura profissional, podem funcionar como mecanismos de desvalorização e controle no ambiente laboral.
Um padrão silencioso
Apesar das diferenças entre os grupos, há um padrão comum: o assédio moral começa de forma sutil, se repete ao longo do tempo e encontra barreiras para ser denunciado. Segundo a pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2024, conduzida pela KPMG Brasil, cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros já sofreram algum tipo de assédio, mas 92% das vítimas não formalizam denúncia.
“Os números revelam não apenas a dimensão do problema, mas também a dificuldade de enfrentamento dentro das instituições. A naturalização dessas práticas contribui para a manutenção de ambientes de trabalho hostis, o que, em muitos casos, faz com que os comportamentos abusivos sejam incorporados à rotina e deixem de ser reconhecidos como violência”, alertou Patrícia.
O SINJUS também produziu um termômetro do assédio moral, que evidencia como a violência se intensifica gradualmente no ambiente de trabalho. Confira o material completo aqui.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ambientes de trabalho marcados por estresse crônico, pressão excessiva e relações abusivas aumentam significativamente o risco de transtornos mentais, como ansiedade e depressão. Entre as principais consequências disso, estão o adoecimento psicológico, o afastamento do trabalho e a evasão de profissionais qualificados.
“Do ponto de vista institucional, esses processos reforçam desigualdades, comprometem a diversidade nos ambientes de trabalho e afetam a qualidade dos serviços prestados. No serviço público, o impacto é ainda maior e afeta diretamente a capacidade do Estado de atender à sociedade com equidade e eficiência”, refletiu a dirigente.
Enfrentamento exige abordagem estrutural
O avanço no combate ao assédio moral passa necessariamente pelo reconhecimento de suas dimensões estruturais. A OIT, por meio da Convenção nº 190, já reconhece que a violência e o assédio no mundo do trabalho atingem de forma desproporcional grupos vulnerabilizados e exigem respostas institucionais específicas.
Nesse contexto, políticas genéricas tendem a ser insuficientes. No SINJUS, servidoras e servidores em situação de violência trabalhista têm seus relatos acolhidos pela Comissão de Combate ao Assédio Moral e Sexual, considerando as especificidades relacionadas a gênero, raça, orientação sexual e deficiência.
Se você é vítima, ou conhece alguém que enfrente o assédio moral no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) ou no Tribunal de Justiça Militar de Minas Gerais (TJMMG), entre em contato com o Sindicato pelo e-mail [email protected]. O Sindicato garante acolhimento, escuta qualificada e um canal seguro para denúncias.
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