ARTIGO

SOBRE PERDAS

segunda-feira, 26/04/21 16:53

Olá, queridas e queridos!

O tempo parece estar passando muito rápido e, assim, estou de volta com minha coluna mensal. Confesso que continuo com aquela eterna dúvida sobre o que escrever por aqui e, enquanto escolhia entre assuntos que tenho estudado — como assédio moral (que é pesado, mas necessário), home office (tão agridoce em suas delícias e agruras) e maternidade (quem é mãe sabe o que é isso em home office!) —, pensei em me gabar de enfim terminar três cursos em que me inscrevi (e recomendo, hein?), o Curso Básico de Ciência Política, do Carlito Neto, o curso do Dieese sobre a Reforma Administrativa — PEC 32 e o curso da  Fundação Demócrito Rocha sobre enfrentamento da violência doméstica. Percebi, então, que iniciava a minha escrita no dia 22 de abril, data em que se completam 11 meses do falecimento do meu pai; e, por isso e pelo contexto que vivemos, resolvi falar sobre perdas.

“O tempo voa” — é assim que dizem — e, de fato, parece que foi ontem que ouvi, naquele hospital, a enfermeira me falar que meu pai não tinha resistido à operação. Eu estava lá sozinha, pois meu irmão ficou em casa com minha mãe. O que senti naquele momento é indescritível e, de verdade, ninguém está preparado para isso: na UTI, perdi o chão e comecei a chorar compulsivamente, enquanto o abraçava. O que o levou foi um câncer de próstata recidivo, que infelizmente não foi notado nos exames habituais que sempre foram feitos. Esses últimos momentos foram, sem dúvida, muito tristes, mas eu gostaria de debater a forma como cada pessoa encara o momento do luto, o que também muda de acordo com as pessoas que se vão, pois, confesso que, quando perdi dois tios muito queridos, sofri muito, mas foi completamente diferente de perder meu pai.

Como cada pessoa experiencia a vida à sua maneira, até hoje eu gosto quando perguntam sobre meu pai. Gosto de falar dele, contar os mesmos casos que ele me contava desde minha infância, as piadas sem graça… Até sobre suas três semanas de luta no hospital, do funeral, etc…não tenho problema nenhum em falar nada sobre ele. Gosto que falem/ lembrem do “Lázaro”, não sei, para mim quer dizer que ele existiu sim, que deixou saudades, que ele viveu (e para mim ainda está vivo, em um outro lugar).

Com isso, não quero dizer que minha reação é boa ou ruim, tampouco que outras pessoas devam agir da mesma forma em situação semelhante. Por exemplo, tenho uma amiga que perdeu o pai recentemente e, ao contrário de mim, não gosta que perguntem sobre ele, pois isso a faz sofrer e ficar mais triste. Trata-se de uma perda recente, mas é comum que, mesmo depois de anos, as pessoas evitem falar de entes queridos que se foram. E foi buscando outras opiniões que minha amiga Fabrícia comentou que lida com a morte de uma pessoa amada dessa mesma forma. Segundo ela, toda vez que alguém pergunta, faz com que ela pense no assunto, o que a entristece, e isso dificulta seguir com a vida.

Apesar de lidar com a morte de uma maneira até mais leve, um dos meus maiores medos sempre foi perder meu pai ou minha mãe… Não conseguia imaginar a vida sem eles. E então meu pai morre assim, sem mais, e eu tive que encarar esse medo. Durante o primeiro mês, todos os dias, ao acordar, falava comigo mesma “Meu pai morreu”, e começava o dia. Claro que, no início, evitei pensar no assunto e arrumei mil e uma coisas para fazer. E conforme o tempo passava, vi que, na verdade, eu tinha que passar por esse momento, até mesmo para entender — conforme a minha crença — que ele está vivo em outro lugar.

Por mais que a experiência do luto seja algo tão pessoal, neste momento que estamos vivendo, em que várias pessoas estão perdendo entes queridos, é mais que necessário tocar no assunto. Ninguém sairá emocionalmente ileso dessa pandemia, então é preciso criar estratégias para lidar com essas dores.

No meu caso, para viver esse momento, recorri a artigos, fiz as pazes com Deus (fiquei revoltada com Ele por ter levado meu pai), voltei para a terapia (fundamental para me ajudar a passar pelas fases sem me cobrar ou me comparar com ninguém), fui a um psiquiatra e tive ajuda com medicamentos e, por fim — confesso —, aumentei a quantidade de vinho… Agora, depois de 11 meses, confesso que fico feliz com minha decisão. Sinto falta dele, ou melhor, sinto saudade, mas penso que ele está num lugar melhor; quem sabe ele não em Valhalla se embebedando com Thor e Odin?

Às vezes, olho para as estrelas e converso com meu pai, e meu irmão ri perguntando se nosso pai é Deus e é onipresente. Acabo gostando dessa ideia, de poder falar com ele, ainda que não consiga escutá-lo. Nas nossas conversas, imagino a reação dele diante de algumas escolhas minhas: estaria me xingando por ter adotado uma gatinha e falaria que, mesmo com 8 kg a mais, continuo magra e que pareço bem mais nova que sou ( “30 e quantos que vc tem, fia?”), me chamaria para ver um programa de inseto, leão ou escorpião, como fã do Discovery Animals que ele era.

É claro que não é porque ele faleceu que virou santo, meu pai tinha defeitos como qualquer pessoa, e eu tinha problemas com ele como qualquer filho. No processo de luto, lidamos com diversas inquietações, mágoas e decepções que não podemos mais resolver. Então, minha solução foi optar (ou aprender) que, para seguir em frente, eu precisava perdoar a ele e a mim.

E depois disso tudo, enquanto escrevo, vejo a foto dele e sorrio… Ah, como ele faz falta! Faz falta nas pequenas e nas grandes coisas, e é disso que gosto de lembrar. Claro, você pode me perguntar: mas você não sofre ou fica triste mais? Olha, a tristeza e o sofrimento transformaram-se em saudade, e a saudade sempre vai existir. Com o tempo, ela deixa de ser dolorosa e torna-se uma boa lembrança.

Enfim, cada um tem seu processo e é importante enfrentá-lo, pedindo ajuda quando necessário. Dessa forma, você passará por ele como você passa por tantas coisas dolorosas na vida.

Cristiane Sampaio

É engenheira industrial eletricista com especialização em Gestão de Projetos e em Engenharia Elétrica. Desde 2013, é servidora efetiva do TJMG. Atua na diretoria do SINJUS-MG desde 2017 e atualmente é diretora administrativa e coordenadora do Núcleo das Mulheres do SINJUS.

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