ARTIGO

Sobre tantas coisas

quinta-feira, 01/07/21 09:44

Olá, queridas e queridos!

Mais um mês passou rápido, mas tanta coisa acontece que sinto como se tivesse passado mais de um mês. No meu último artigo, trouxe um assunto difícil (mas necessário), que é o assédio, e acredito que essa dificuldade prejudicou um pouco “esse nosso bate-papo” do mês passado. Mas como o assunto é importante, quem quiser dar uma conferida ou até me sugerir algo relacionado ao tema, clica aqui (depois de terminar o artigo de hoje, é claro!).

Neste mês, em meio a mil assuntos na cabeça e confiando que, às vezes, a “inspiração” vem quando menos esperamos, em uma noite de insônia olhei para as estrelas, para a lua, e me veio à mente um pensamento: “Não acredito que, em pleno século XXI, estejamos discutindo se a terra é plana, se houve ou não ditadura no Brasil, se alguém ‘merece ou não ser estuprado’, se mulher ‘merece’ ganhar menos por engravidar ou se a vacina vai nos transformar em jacaré…”.

É isso, minha noite de insônia me fez pensar essas coisas e comecei a tentar lembrar como chegamos a esse ponto. Falo com toda a humildade, sem querer saber quem tem culpa disso ou daquilo; quero realmente saber como um país que estava se desenvolvendo — não estou falando de índices ou padrões de países em desenvolvimento, como economia, cuidado com o meio ambiente, pautas raciais, sociais, feministas, etc., estou falando de ordem geral — chega a ter como pauta de discussão Terra plana, por exemplo?! Acho que isso, o formato da Terra e seus movimentos de rotação e translação, é ensinado nos primeiros anos da escola. E é nessa hora que chega alguém pra falar que não devemos aceitar os “fatos prontos” e precisamos pesquisar. Até concordo, estudar é bom! E quem são Pitágoras, Platão, Isaac Newton, Huygens, e muitos outros cientistas, filósofos, estudiosos (contém ironia), para tentarem provar há tanto tempo que a Terra é redonda? Dá pra parar por aqui, né? Ou ficar com a lembrança da imagem e da voz de Neil Armstrong, em 20 de julho de 1969, quando falou a célebre frase: “É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a Humanidade”, ao pisar na Lua, no ponto alto de uma missão em que ele também constatou que a Terra é redonda. E é triste saber que, mesmo com todo o progresso científico, há muitas pessoas que questionam se realmente o homem já foi para o espaço. Antes eu achava que era “zoação”, mas agora vejo que essas pessoas existem…

Outro questionamento, talvez até mais triste, é se realmente houve ditadura no Brasil. Oficialmente a Comissão Nacional da Verdade reconheceu 434 mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar, mas, como nosso país tem a cultura do disfarce, várias vítimas desse período tiveram seu sumiço encoberto: já imaginou quantas pessoas consideradas indesejáveis ao regime militar foram enviadas a hospícios, e, ali, mortas? O pior é que a ignorância de quem nega esse momento da nossa história ultrapassa as fronteiras brasileiras e, assim, essas pessoas também costumam desacreditar o Holocausto. Como é possível negar as consequências da 2ª Guerra Mundial, como o envio de judeus aos campos de concentração?! Não há que se questionar se isso existiu ou não, pois isso é deslegitimar a selvageria ocorrida. A discussão que nos cabe, nesse momento, é sobre a barbárie e as horríveis consequências das ditaduras, para nunca mais deixarmos isso acontecer!

Acabei tomando um tom mais revoltado hoje, mas isso é consequência de algo maior do que uma noite de insônia. O que 500 mil mortes evitáveis e falta de vacinação não fazem conosco, não é? O que a perda de entes próximos e queridos não fazem conosco?

Este era o momento para estarmos evoluindo em outras questões, como a garantia de direitos iguais para homens e mulheres; uma legislação que atenda às necessidades de minorias como LGBTQIA+, pessoas com deficiência, negros e indígenas; o provimento de condições mais dignas a pessoas que estão no limite da extrema pobreza; a melhoria e a ampliação do acesso à educação… Enfim, em meio a tantas coisas importantes e a tanta necessidade da população, estamos discutindo se a vacina contra a covid-19 transformaria as pessoas em jacaré, como forma de colocar em dúvida a sua eficácia.

O que estou tentando dizer com isso é que, em um momento como o que vivemos, ainda está acontecendo um retrocesso tão grande — não apenas de direitos, mas também em termos de conhecimento e cultura — que poderemos demorar décadas para voltar ao nível em que estávamos. E para quê?

Muitos acreditam que isso ocorreu para tirar do poder um governo alegadamente corrupto, e eu não direi que não era corrupto, ou que não seja bom haver alternância no poder, mas por que mudar o cenário para tanto retrocesso? Tínhamos escolhas, sim, mas a maioria fez a pior escolha… Deve ser por isso que minha insônia está cada vez mais presente, enfim…

Despeço-me com um beijo e um convite para que me contem o que acharam deste texto. Mesmo se não concordar com as minhas opiniões, me escrevam ([email protected]), pois quero realmente entender, aprender e conversar sobre esses temas… Conversando vamos nos entendendo!

Cristiane Sampaio

É engenheira industrial eletricista com especialização em Gestão de Projetos e em Engenharia Elétrica. Desde 2013, é servidora efetiva do TJMG. Atua na diretoria do SINJUS-MG desde 2017 e atualmente é diretora administrativa e coordenadora do Núcleo das Mulheres do SINJUS.

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