ARTIGO

Impactos do aumento da taxa Selic para a população

segunda-feira, 24/05/21 12:15

Nas últimas duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BCB), foram anunciados aumentos da taxa básica de juros da economia brasileira, a taxa Selic. Neste texto, vamos abordar essa questão buscando mostrar alguns dos efeitos dessas decisões para o dia a dia das pessoas.

O Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), segundo o BCB, é uma infraestrutura do mercado financeiro brasileiro, administrada pelo Banco Central, que se destina à custódia de títulos escriturais de emissão do Tesouro Nacional, bem como ao registro e à liquidação de operações com esses títulos. A taxa Selic, referência para a remuneração dos títulos públicos, é uma média dos financiamentos diários apurados no sistema Selic. Essa taxa tem grande influência sobre as demais taxas de juros da economia (como juros de empréstimos, cartões de crédito, cheque especial, etc.),  a taxa de câmbio, a de inflação, além de outras variáveis econômicas.

Neste momento, nos interessa abordar a relação da taxa de juros básica da economia com a inflação, a taxa de câmbio e o crescimento da economia. Quando o BCB decide aumentar a taxa Selic, ocorre uma ampliação da diferença da taxa de juros básica da economia brasileira em relação às taxas de juros praticadas em outros países. Os investidores, ao notarem essa ampliação, decidem aplicar seus recursos nos títulos do Brasil. Como essas aplicações são feitas na maior parte das vezes em dólares americanos, o aumento do ingresso dessa moeda no Brasil significa um aumento de sua oferta. Esse aumento da oferta de dólares, por sua vez, acarreta redução do preço do dólar, ou seja, se antes do aumento dos juros fossem necessários R$ 2,00 para a compra de US$ 1,00, após o aumento, poderia bastar R$ 1,00 para comprar US$ 1,00, por exemplo.

Esse exemplo é o que chamamos de apreciação cambial, ou seja, torna-se necessária uma quantidade menor de moeda nacional para a compra de moeda estrangeira, de modo que a moeda nacional se torna mais forte, se aprecia. Nessa situação, os bens e serviços importados ficam mais baratos em moeda nacional. Como esses bens e serviços compõem a estrutura de custos e preços da economia, isso faz com que haja um efeito de diminuição da inflação. Dessa forma, o aumento da taxa de juros pode levar à redução da inflação, via taxa de câmbio. A essa situação, alguns autores dão o nome de “âncora cambial”. O efeito negativo desse cenário é a piora da balança comercial, pois os bens importados ficam mais baratos e os bens exportados pelo país, mais caros.

Outra forma pela qual o aumento da taxa de juros pode levar à redução da inflação é por meio do efeito intertemporal no mercado de poupança/investimento. Juros mais altos, hoje, levam as famílias a reduzirem seu consumo atual para aumentarem suas aplicações, de modo a aproveitarem o maior rendimento dos títulos. Esse consumo menor significa uma menor demanda por bens e serviços, que, por sua vez, leva à queda dos preços.

É claro que o aumento dos juros não traz apenas o efeito positivo da redução da inflação; muito pelo contrário, os efeitos são majoritariamente negativos. Juros mais altos podem implicar, por exemplo, redução do investimento produtivo da economia. E isso ocorre porque, no seu processo de tomada de decisão, os investidores avaliam a rentabilidade esperada de seus investimentos comparando, por exemplo, o retorno que será pago pelos títulos públicos com o retorno esperado de um investimento em uma fábrica de calçados. A medição do retorno do investimento na fábrica de calçados é muito mais complexa, pois envolve incertezas relacionadas ao comportamento da economia no futuro. Dessa forma, um aumento da taxa Selic – que é o retorno dos títulos públicos – pode desestimular o investimento na fábrica de calçado, pois é muito mais fácil para o investidor tomar essa decisão de investimento, já que o risco é muito menor.

Extrapolando esse raciocínio para a economia como um todo, dizemos que o aumento da taxa de juros pode levar à redução do investimento produtivo, o que acarretará redução da oferta de postos de trabalho, da renda das famílias, da demanda agregada, da arrecadação e do crescimento econômico. Assim, é necessário que a autoridade monetária — no caso do Brasil, o BCB —, quando da fixação da taxa de juros básica, leve em consideração não apenas a inflação mas também o crescimento econômico.

Thiago Rodarte

É economista com graduação e mestrado pela UFMG, onde foi professor substituto. Ex-diretor da Secretaria de Desenvolvimento de Minas Gerais. Atua no DIEESE, assessorando, atualmente, os sindicatos dos servidores da Justiça Estadual de Minas Gerais.

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